O poder do black money no mercado para obras decoloniais: AFRO-ART registra primeira venda para empresária negra, investidora e artista
A AFRO-ART – Feira de Arte Negra e Indígena surge como uma iniciativa pioneira para democratizar o mercado artístico, com foco em artistas negros(as) e indígenas emergentes. Em um contexto marcado por desigualdades de oportunidades, especialmente para criadores com um olhar decolonial, a feira cria um novo circuito de comercialização de obras e valoriza essas produções que frequentemente enfrentam resistências. Antes mesmo de sua abertura oficial, a feira já celebrou a venda de sua primeira obra, “Ori”, do artista Emerson Rocha.
Com dimensões de 42 cm x 42 cm, a obra foi criada com acrílica, nanquim, lápis de cor, marcador, waji e pigmento ouro sobre papel kraft. “Ori” chamou a atenção da empresária Maju Passos, que se tornou a primeira compradora do evento. Para Maju, que é uma mulher negra, baiana e também artista, a feira representa um marco importante tanto para a valorização da arte negra e indígena quanto para a ampliação de espaços de mercado para essas obras.
“Eu fiquei muito feliz em ver que existe uma iniciativa como essa, que valoriza nossa arte. Como empresária, observo também o potencial dessa ideia no campo dos negócios, pois abre um espaço essencial para a visibilidade e a comercialização de obras de artistas negros(as) e indígenas”, destaca Maju. Para ela, a feira é também um chamado para que mais brasileiros reconheçam o valor dessas produções e invistam nesse mercado ainda em desenvolvimento.
A aquisição da obra “Ori” carrega um significado pessoal para Maju, que viu na peça uma conexão emocional com sua própria história. “A primeira coisa que me chamou a atenção foi o peixe na cabeça. Tenho um filho chamado Ayo, que ama peixes e é do signo de peixes, assim como eu. O peixe é uma referência importante na nossa relação. Quando o vi na figura de um menino com o peixe na cabeça, a imagem me trouxe um sentimento de proteção. Foi impossível não associar essa figura ao meu filho”, explica.
A curadoria da feira, conduzida por Luana Kayodê, CEO-fundadora e diretora criativa da AfrontArt – Quilombo Digital de Arte, e por Raína Biriba, cofundadora e diretora executiva, reforça o impacto socioeconômico dessa iniciativa. Com o objetivo de estimular a ocupação de espaços históricos e mercadológicos por artistas negros(as) e indígenas, a AFRO-ART promove um ambiente que incentiva o diálogo entre arte, mercado e sociedade.
Maju Passos também enfatiza o papel coletivo da feira: “É essencial que os artistas entendam que, além de criar, precisamos nos organizar e buscar nossos espaços. A curadoria faz toda a diferença nesse processo, pois dá suporte e visibilidade para que a produção decolonial alcance novos públicos”.
A venda de “Ori” antes mesmo da abertura da feira simboliza não apenas o potencial da AFRO-ART como espaço de conexão entre artistas e compradores, mas também a necessidade de ampliar iniciativas que democratizem o acesso às artes visuais no Brasil. A feira demonstra que o mercado para obras decoloniais não só existe, como também pode crescer com iniciativas estruturadas e comprometidas com a inclusão.
Ao todo, a AFRO-ART reúne cerca de 40 artistas e mais de 80 obras comercializadas, com preços que variam entre R$ 3 mil e R$ 70 mil reais. Com entrada gratuita, a expectativa é que cerca de 3 mil pessoas visitem a Cardume Artes Visuais, Pelourinho, até 26 de janeiro, quando acontece o encerramento da feira. Buscando gerar um retorno não só social, mas também econômico para a comunidade, o evento visa movimentar um montante de cerca de 500 mil reais em venda de obras de arte, promovendo articulação, equidade, geração de renda e protagonismo aos artistas e profissionais envolvidos.
O projeto tem patrocínio da Stella Artois e do Governo do Estado, através do Fazcultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda, contemplada através do edital Fundo Bora Cultura Preta, em que a AMBEV, em parceria com a PretaHub, inaugura sua política afirmativa voltada ao empreendedorismo cultural e à economia criativa negra. A realização é da AfrontArt – Quilombo Digital de Arte.
Sobre a AfrontArt
A AfrontArt é uma empresa baiana de impacto social e inovação voltada ao fomento às artes visuais preta e brasileira, que desde 2020 vem construindo um espaço de referência para os artistas e profissionais afrodescendentes e originários, no que tange a circulação e venda de obras, criação, curadoria, qualificação profissional e fortalecimento da comunidade. Ela tem como objetivo articular e fomentar a cadeia produtiva das artes visuais negra e indígena brasileiras a partir de ações estratégicas para a gestão da criação, produção e monetização. Realizou projetos em parceria com a Prefeitura de Salvador como o “Festival Salvador Capital Afro”, Metrô de São Paulo com as exposições “Qual o Pente que te Penteia” de Juh Almeida e “Zamba” de Bruno Zambelli, e com o Centro Cultural Banco do Brasil com a exposição “Indomináveis Presenças”.
SERVIÇO
[AFRO-ART – Feira de Arte Afro-Indígena]
Data: 13 a 26 de janeiro de 2025
Horário: aberto ao público das 10h às 19h
Local: Cardume Artes Visuais, Rua do Bispo, 35, Salvador
Programação: exposição e venda de obras de arte e rodas de conversa abertas ao público
Entrada gratuita